Comunicado de Imprensa
Comemora-se no próximo sábado, o 6º Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade e o 1º Dia Europeu da Obesidade.
Cumpre, em primeiro lugar, realçar que a luta pela existência de uma dia europeu em que se discuta a problemática da obesidade vem desde há vários anos e foi finalmente adoptado o dia que nos últimos anos foi o comemorado por Portugal – o penúltimo sábado de Maio.
A Europa vive um momento de crise civilizacional. A obesidade é o paradigma das doenças da civilização actual. Poucas traduzirão tão claramente assimetrias e desigualdades que caracterizam o mundo actual e que o atingem de forma generalizada.
Desde a revolução industrial, o modelo de desenvolvimento visou a criação da cidade industrial que foi sinónimo de progresso desde 1850 até aos fins do século XX. Mas a cidade muda a sua escala e expulsa do centro muitas actividades. O subúrbio passa a ser a cidade sem rosto e sem referências. O consumismo é o símbolo do subúrbio. O automóvel, a televisão e a comida de plástico são os expoentes máximos deste consumismo.
Desde os elementos mais sensacionalistas dos media aos investigadores e associações médicas classificam a situação da obesidade como desastre eminente. Pela primeira vez, o peso da obesidade traduziu-se na inversão da tendência milenar para o aumento da sobrevida da humanidade: as crianças de hoje morrerão mais cedo do que os seus pais.
Para além do mais grave problema de saúde do século XXI, a obesidade é sobretudo um problema sócio-político. Os obesos são mais pobres, mais desprotegidos, e de nível sócio-cultural mais baixo. Por tal motivo só medidas societárias pode resolver este problema. A formação de todo o pessoal de saúde contribui para a criação de uma mentalidade que aceite medidas societárias mais difíceis mas provavelmente mais eficazes. Taxar os alimentos altamente energéticos, restringir a publicidade à comida de plástico e alavancar a frequência e a intensidade de educação física nas escolas são algumas das mais importantes medidas a adoptar. Estas medidas sociopolíticas requerem a colaboração de todos os parceiros dentro, mas sobretudo fora, da área da saúde.
Dimensão do problema
A prevalência de obesidade no nosso País é elevada e tem vindo a aumentar: quando se compara a prevalência de obesidade e pré-obesidade de 1995 com a de 2005 observamos um aumento de 49,6 para 52,3%. Este aumento é à custa da pré-obesidade que passa de 35,2 para 38,4%, e dos homens que passam de 54 para 59,3%. No que se refere à obesidade abdominal associada a risco aumentado de outros factores de risco (nas mulheres Perímetro da Cintura PC> a 80 cm e nos Homens> 94 cm) a sua prevalência é de 43,6 para as mulheres e de 51,1% para os homens. Para PC> a 88 cm para as mulheres e a 102 cm para os homens (risco muito aumentado) a prevalência é de 20,1 e 26,7% respectivamente. Se estes números são alarmantes a gravidade é extrema se pensarmos na obesidade infantil: a prevalência é de 12,3% para as crianças dos 2 aos 5 a. e de 14% para as dos 11 aos 15 a. Se pensarmos em obesidade e pré-obesidade os números são igualmente arrepiantes: 1/3 das crianças têm obesidade e excesso de peso: dos 2 aos 5 anos 35,5% (34,8 nas raparigas e 35,2% nos rapazes) e dos 11 aos 15 anos 33,9% (32,7 nas raparigas e 35,3% nos rapazes). A gravidade da situação repercute-se nas doenças associadas: a prevalência de diabetes é de 11,7%, sendo de 14,2 nos homens e 9,55 nas mulheres. Quando pensamos em custos, o aumento do consumo de medicamentos antidiabéticos orais aumentou 31,4% de 2000 para 2007, sugerindo inequivocamente de que vale a pena investir na prevenção da obesidade para impedir a diabetes, a HTA, a dislipidemia e por último a doença cardiovascular.
A obesidade, em particular a abdominal, associa-se a vários factores de risco cardiovascular nomeadamente dislipidemia, hipertensão arterial e hiperglicemia. Naturalmente há mais de 80 anos que o conceito desta constelação foi reconhecido e tem recebido variadas denominações, tais como síndrome metabólica, síndrome X, síndrome de insulinorresistência, ou quarteto mortal. Não só a denominação tem sido variável como os critérios de definição da síndrome. O relevante é que o combate destas outras doenças passa em 1º lugar pela prevenção da obesidade.
Crise e oportunidade de mudança
A crise que o nosso País atravessa pode e deve ser uma oportunidade de mudança. É indispensável que se facilite o uso de transportes colectivos mais baratos, menos poluentes e facilitadores da actividade física. Importa divulgar escolhas saudáveis e esclarecer as populações de que é possível comer saudável sem isso significar comer mais caro. Rentabilizar os recursos disponíveis e repensar as nossas cidades como veículos de um urbanismo ao serviço do homem.
Davide Carvalho, Prof Doutor
20/05/2010